Proibição do Filme “Noé”: Países de uma maioria religiosa ditam suas liberdades

Acabo de dar uma entrevista para a Rádio Justiça do Supremo Tribunal Federal. O repórter pedia para eu comentar a proibição do filme “Noé” na Indonésia que ocorreu há um dia.

Comecei dizendo que fico muito preocupada quando estas notícias de restrições por motivos religiosos ocorrem. Isto significa muito mais do que a proibição em si, do que a privação dos cidadãos daquele país de assistirem a um filme que retrata uma história da tradição cristã, relatada em um livro sagrado cristão, a Bíblia. Significa muito mais: é a mais fiel tradução de um dos maiores males da humanidade, que já levou milhões de pessoas à morte, causa da maioria dos conflitos bélicos do mundo, segundo a ONU: a intolerância religiosa.

Eu tenho o direito, como cidadão, de não concordar com a crença religiosa do outro, mas tenho o dever, inclusive legal aqui no Brasil, de respeitar a sua escolha. Sem se adentrar ao mérito do filme, se o mesmo traduz com fidelidade ou não a narrativa bíblica, e não é essa a preocupação imediata, o que importa agora é a preocupação com relação à ameaça a um direito. Quando um pais, que possui uma maioria que professa determinada crença, simplesmente por motivos religiosos, proíbe a exibição de um filme que contemplaria um ensinamento de uma minoria religiosa e simplesmente por isso este ensinamento não pode ser divulgado pois isto ameaçaria a uma hegemonia religiosa, tal pais nada mais fez do que proceder de forma intolerante. A menos que o conteúdo de um filme seja ofensivo e ameaça a outros direitos. São sementes de ódio que são plantadas e que acabam servindo de exemplo, pois já existem outros países de uma maioria religiosa que estão pedindo a proibição de exibição do referido filme.

Quando uma liberdade tão fundamental e cara à dignidade humana, que é o seu direito de escolha, se encontra ameaçado, todas as demais liberdades encontram-se em risco. Pode-se dizer seguramente que quando o indivíduo encontra-se privado do seu direito de escolher uma crença, de manifestar esta crença publicamente, de viver segundo esta crença e de poder se organizar com outras pessoas em função desta crença, não se pode falar em dignidade humana, não se pode falar em liberdade, não se pode falar em respeito e todos os demais direitos fundamentais se encontram ameaçados.

Nesse sentido, estas proibições devem acender um sinal de alerta, devem acionar os nossos mecanismos de vigilância, pois este é o preço da liberdade.

Fonte: Conexão Jovem (Revista Virtual)

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