A crônica do retrovisor e a visão da intolerância religiosa extrema

Saindo de casa nessa manhã observei o motorista olhando no retrovisor para manobrar o carro. O retrovisor serve como referência, oferece segurança e é extremamente útil no trânsito, ainda que sua visão seja retrospectiva.

No momento em que fiz essa reflexão, pensei numa notícia que assisti no quarto do hotel há alguns dias, mas que em virtude dos muitos compromissos, não tive oportunidade de escrever sobre a mesma, como era o meu desejo. Pensei, a notícia já foi. Outras atravessaram o caminho, não escreverei mais sobre o assunto.

Mas a dinâmica do meu motorista com o retrovisor me fez mudar de ideia. Há anos atuo em defesa da liberdade religiosa e me refiro à reportagem sobre o ato brutal de intolerância religiosa contra casas de cultos de matriz africana que o Fantástico apresentou no último domingo.

Pensei, porque não apresentar minhas considerações como alguém que observa o movimento pelo retrovisor? Porque deixar de expressar minha opinião somente porque o fato é pretérito?

A matéria veiculada revela as consequências do preconceito, da discriminação e da intolerância. Ameaça, intimidação e violência contra o sagrado espaço alheio.

O que mais me impressiona é que o valor religioso é tão elevado que as pessoas não se intimidam. Algumas se sujeitam, inclusive, à possibilidade de perder a vida mas não abrem mão de sua religiosidade.

A reportagem me fez pensar em três princípios que norteiam a maioria das minhas ações em defesa, proteção e promoção da liberdade religiosa:

  1. 1. Princípio do respeito. Há uma frase atribuída a Voltaire, que diz: “Posso não concordar com uma única palavra do que dizes, mas defenderei com a minha vida o direito de dizê-las.” Respeitar não significa concordar, mas ver o outro, o diferente, como merecedor do mesmo respeito que reivindicamos para nós.
  2. 2. Princípio da reciprocidade. Todos conhecemos aquela frase de Jesus Cristo que diz: “Portanto tudo quanto quereis que as pessoas vos façam, assim também fazei-o vós a elas”. Se queremos ser tratados com dignidade, devemos também tratar as outras pessoas igualmente. Esse princípio também é conhecido como Regra Áurea, à qual todos nós devemos praticar.
  3. 3. Princípio da coerência. Esse princípio tem mão dupla, tanto aplica-se a quem realiza as ações intolerantes, como a quem observa os fatos. Não é coerente, em nome de Deus, ameaçar, intimidar e agir com violência. Jesus nos ensinou a amar até nossos inimigos. Também temos que ter coerência quando observamos os fatos e refletimos sobre eles. Será que alguém que está agindo em nome de uma religião, contrariando os valores, objetivos e princípios dessa religião pode, de fato ser considerado como um representante de uma organização religiosa? Valho-me de um último pensamento que diz: “Pelos frutos conhecereis.”

Olhar no retrovisor é um exercício automático que fazemos milhares de vezes a cada dia quando dirigimos. Refletir sobre fatos do passado recente ou mesmo remoto, mas que possam ser analisados na perspectiva de tirarmos um aprendizado dos mesmos, é sempre saudável. Essa foi minha primeira crônica do retrovisor. Outras virão.

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